Priscila Moreno, Alforjaria

No dia 26 de Junho de 1800 e bolinhas, a patente da bicicleta foi criada por W.K. Clarkson. Nem sabia ele que no século 21, uma garota cheia de imaginação criaria uma loja só para alforjes, as bolsas usadas na sela das bicicletas de ciclistas de todos os tipos. “Não vendemos alfajor”, diz Priscila Moreno da Alforjaria. Mas no dia da abertura de sua loja no boêmio bairro da Vila Madalena, em São Paulo, o doce acompanhou os alforjes! Foi por uma necessidade financeira que Pri começou a usar a bike como meio de transporte, e logo percebeu que precisava de uma bolsa para carregar a roupa que usaria para trabalhar todos os dias. Comprar um alforje daqueles feios e sem cor não o era seu plano. Decidiu então fazer seu próprio.

girletc-blog-collagem-alforjaria Logo as pessoas começaram a perguntar onde ela tinha comprado bolsa tão linda. Quer coisa melhor do que responder “eu que fiz”? Hoje em dia são 28 modelos diferentes de bolsas de guidão, alforjes, mochilas e bolsas de selim. Ela mesma faz todas, com a ajuda de uma pessoa, o que leva cerca de 4 horas para fazer um alforje, que também pode ser customizado ao gosto do cliente.

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Profile & Carreira

Qual foi o seu primeiro emprego? Meu primeiríssimo emprego, com registro na carteira e tudo (o único até hoje) foi em uma video-locadora. Que pena que nem existem mais.

Como veio a ideia de criar a Alforjaria? A Alforjaria surgiu na intersecção de três eixos principais: Eu tinha uma necessidade, dominava a técnica e estava na hora certa. Quando comecei a pedalar, tinha duas opções: ou eu comprava um alforje em euro, ou comprava em real mesmo, um alforje feio de nylon preto, que era o que havia disponível. Fiz o meu, eu mesma, de lona azul com forro vinho e pesponto amarelo, fiz o da amiga, da amiga da amiga, e quando vi, paravam meus amigos na rua para perguntar onde tinham comprado aquela bolsa. Isso foi em 2010, em 2011 eu já estava com a Alforjaria estruturada para ser como é hoje.

De onde vem a inspiração para criar cada modelo? Uma pessoa que você gostaria de ver usando uma de suas peças? Cada dia é uma nova possibilidade, a inspiração vem da vida, da rua. Pode ser uma bolsa de alguém, um sonho, uma necessidade diferente, vc tem que estar aberto e ter sensibilidade para perceber um estímulo e transformar uma sensação em algo concreto. Em geral, sonho com os modelos. Acordo e vou ansiosa para a oficina, executar o projeto. Uma pessoa que eu gostaria de ver usando minhas peças? Bom, talvez aqui as pessoas diriam o nome de alguém famoso. Brigitte Bardot, Coco Chanel? Mas eu fiquei realizada mesmo no dia em que meu avô pediu que eu fizesse uma bolsa de pescaria para ele. Tinha que ser impermeável, e tinha que ter muitos bolsos, para as iscas, para as linhas, para os anzóis, e tinha que ter as alças assim e assado, porque isso e aquilo… Ver meu avô, tão velhinho, feliz com a mochila que ele queria, feita sob medida pra ele, ah, foi lindo.

Qual conselho você daria para alguém que também sonha em ter o seu próprio negócio? Apenas faça. Comece agora. Esteja pronta pra quando aparecer uma chance.

Qual a parte mais difícil e a mais gratificante de ter criado a Alforjaria? Eu trabalho com ciclistas. Uma cena eu nunca vou esquecer: uma amiga foi atropelada e morta por um ônibus na Avenida Paulista. Na fotografia do jornal, a bicicleta retorcida, o vazio no asfalto e a bolsa dela caída a alguns metros dali. Não era da Alforjaria, mas eu faço bolsas para ciclistas. Ciclistas, no Brasil, são quase invisíveis, apesar de também sangrarem. Isso dói. Essa é a parte mais difícil. Porém, consta na missão da empresa: nós mudaremos as cidades onde estivermos presentes. Explico: se o meu negócio dá certo (e tem dado), se mais ciclistas precisam de alforjes, isso quer dizer que muitos ciclistas estão nas ruas. E quanto mais ciclistas nas ruas, mais segura a rua é, para o ciclista, para as crianças, para todo mundo.  A Alforjaria se orgulha de ser uma empresa 100% ciclo-ativista. Essa é a parte mais incrível. Eu trabalho pela subversão. Nada é mais subversivo do que uma mulher bem arrumada andando de bicicleta em meio ao caos selvagem do mundo másculo e hostil que é o trânsito de São Paulo.  Isso é uma posição política, mais que um mero nicho a ser explorado. Esse é um dos diferenciais da minha empresa, isso é muito gratificante, ter um negócio que não é um negócio comum.

Um artista/designer/estilista que fala a sua língua? Os que fazem da rua, suporte.

Um sonho que ainda deixa você acordada antes de dormir? Encomendas atrasadas me deixam bem acordada antes de dormir, projetos novos também.

O que você diria para a Priscila de 21 anos? Vá em frente.

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São Paulo 

Qual é o seu lugar preferido na cidade? Qualquer rua que tenha ipês em floração.

Alguma dica de restaurante bacana? Martin Fierro, aqui perto da Alforjaria.

E no bairro da Vila Madalena, quais lugares você adora (compras, visitar, comer… etc)? Adoro Les Delices de Maya, na Mourato, tem uns bolos sensacionais. A Portfólio, também na Mourato, é uma perdição pra quem gosta de cadernos e afins.

Um lugar que todo não-paulista tem que visitar… Uma oficina de acessórios para ciclistas que é pequena, bagunçada e super colorida, chamada Alforjaria. Fica na Inácio Pereira da Rocha, 366, Vila Madalena. Eu adoro.

– Priscila Moreno foi fotograda por Juliana Kang na Vila Madalena em Junho de 2014. 

  • Flávia S.

    Que lindas bolsas! História linda, dá até vontade de sair por aí andando de bike toda arrumada, rs!