Celina Hissa, designer, Catarina Mina

Toda conversa é uma troca. Troca de aprendizado, troca de afeto, ou simplesmente troca de tempo. Nossa conversa com a criadora da marca de acessórios Catarina Mina, a primeira marca do Brasil a ter seus custos abertos, foi uma troca de tudo isso, e mais – aprendemos que quando as coisas são feitas com propósito, dão certo. Celina Hissa é publicitária e designer. É também a co-criadora da Fia Oficina, que arrecadou mais de R$30 mil de financiamento coletivo para colocar o projeto em andamento.

Ganhadora do prêmio Ecoera Vogue Brasil, a Catarina Mina começou uma nova fase desde 2015, com o lançamento do e-commerce da marca, e consequentemente, dos custos abertos. O que isso significa? Que todos, sim, todos os custos da empresa são descritos na página de cada bolsa. Custos como o próprio trabalho das artesãs da Associação de Crocheteiras do Ceará, das costureiras que juntam as peças, da materia prima, do marketing, e do time que empacota e cuida de toda a logística necessária para que seu produto chegue nas mãos de cada cliente.

A ideia inicial era para ser uma coisa pequena para viabilizar o trabalho das artesãs, mas o crescimento foi rápido. Até então, ela fazia muito trabalho de “Private Label” para empresas como Daslu, Osklen, e Le Lis Blanc. Lá a produção era maior, mas não era isso que Celina procurava. Na nova Catarina Mina, ela consegue ter uma produção mais sustentável e transparente. Assim nasceu a hashtag #umaconversasincera, abrindo um diálogo transparente entre a marca e seus consumidores.

Ateliê Catarina Mina

Cada bolsa é feita por processos – do design, ao crochê, até a costura que transforma todos os pedaços de crochê em bolsa.

O que você fazia antes de começar a Catarina Mina?

Eu sou publicitária, trabalhava como Diretora de Arte de uma agência. Fazia design gráfico, o que continuo fazendo até hoje na Catarina Mina. Em 2012 fiz um mestrado, onde estudei Coletivo de Arte, pensando nesses modos coletivos de trabalho.

Antes de decidir que a marca mostrasse os seus custos, de onde veio a inspiração, e em algum momento você teve dúvida sobre essa proposta?

Muito. Na verdade eu vinha de um lugar em que estava um pouco desacreditada com a relação com a moda. Quando você vive de perto o artesanato e quer valorizá-lo mas não consegue, é frustrante. Em 2014, fui refletindo sobre essas questões no meu mestrado, estudando muito sobre a amizade, a conversa, onde você só estabelece um diálogo quando você está aberto a isso, e os dois lados se modificam. Foi pensando sobre isso, e também tinha a questão de querer pagar o que é justo pro artesão, mas dentro da cadeia produtiva é apertado, então queria tornar isso viável. Tinha muita vontade de abrir os custos, quando até pessoas próximas se perguntavam porque algo custa tanto. Veio a ideia de ter uma conversa com o consumidor, de convidá-lo a ver junto com a gente os modos produtivos, as questões que estão por trás de uma produção. Vejo por exemplo, a produção local de sapatos que existia aqui em Fortaleza na Rua Monsenhor Tabosa, ela foi toda substituída por produtos feitos na China. Você vê toda uma cadeia se desmanchando na frente dos seus olhos. Ao mesmo tempo, todo mundo acha o artesanato lindo e quer que isso permaneça em nossa cultura.

Entre as coisas mais difíceis e as mais gratificantes estariam no mesmo lugar, que é a questão de trabalhar com pessoas

- Celina Hissa

Como você conheceu as artesãs?

A Catarina Mina é o que é pelas afinidades que fui construindo. Eu já trabalhei com o tear, com a chita, e tive uma afinidade muito grande com as mulheres que faziam o crochê. A coisa vai fluindo, o processo é muito orgânico. Não dá pra prever como vai ser. O grupo que a gente trabalha em Itaitinga deu muito certo. Tem muito essa relação com o afecto. Ele é uma coisa muito importante no consumo. Procurar marcas que você se identifica pela proximidade, estimular a economia local.

Qual é o maior desafio da Catarina Mina hoje?

Mediar as relações entre as necessidades empresariais e as necessidades afetivas nesse crescimento como empresa. Você tem que ter um posicionamento empresarial mas ao mesmo tempo construir algo diferente.

Qual a parte mais difícil e mais gratificante de ser empreendedora?

O empreendedor tem que estar sempre se revisitando e ser muito optimista. Principalmente para quem é pequeno. Mas entre as coisas mais difíceis e as mais gratificantes estariam no mesmo lugar, que é a questão de trabalhar com pessoas. As vezes você encontra dificuldades, mas também tem o lado bom de ter pessoas que estão juntas com você acreditando no seu objetivo.

– Celina Hissa foi fotografada por Babi Guedes em Fortaleza, Ceará. 

  • Amene cidrao

    Parabens pelo trabalho e dedicacao!!! Adorei!!