Stephanie Noelle, jornalista e blogueira, Chez Noelle

Tivemos o prazer de conhecer a Sté Noelle, quando a casinha Petiscos ainda exisitia, e não tem como não se apaixonar por essa garota! Quem lê os textos dela sabe bem do que estamos falando, seus textos são aprofundados e genuinos, falam de muito “girlpower” sem frescura. Esperamos poder passar um pouquinho do que ela representa nessa conversa gostosa que tivemos com a jornalista e blogueira do Chez Noelle

Qual a parte mais gratificante e a mais difícil de conciliar a carreira de jornalista no Petiscos e a de blogueira?

Não preciso nem pensar pra responder que o mais gratificante é o retorno de quem me lê. É inexplicável o sentimento de ler que algo que eu escrevi tocou a pessoa de alguma forma, mudou a vida, fez ela pensar de outro jeito. Com certeza eu nunca vou me acostumar com isso e vai sempre me colocar um sorriso no rosto e uma lagriminha faceira.

Logo em seguida vem a sensação de acolhimento. Eu escrevo muitas vezes pra lidar melhor com o que tô sentindo, ou pra dividir algo que é muito forte pra mim naquele momento. E quando as pessoas compartilham suas histórias semelhantes e seus pontos de vista, é tipo um abraço. Eu me sinto acolhida, rodeada de gente que passa ou passou pelo mesmo e está se apoiando, e essa sensação de comunidade é muito especial pra mim. Fora que ler que eu ajudei a pessoa a não se sentir sozinha faz meu mês, porque é recíproco e é inestimável.

E o mais difícil é, sem dúvidas, o tempo. Eu já me cobrei bem mais e sacrifiquei muito da minha vida pessoal pra poder estar mais presente no blog, mas eu precisei achar um equilíbrio, porque tava ficando doida! E se eu não viver a vida, vou escrever do que, né? O fato é que ter duas profissões vai ser sempre complicado e exigir sacrifícios, mas a gente precisa escolher o que sacrificar um dia de cada vez. Normalmente quem sai perdendo é meu sono ?.

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Você é honesta com suas leitoras e compartilha suas próprias dificuldades de coração aberto. Teve algum momento em que você pensou em não compartilhar algo, ou parar de mostrar um pouco da sua vulnerabilidade como uma garota de 20 e tantos anos? Já se arrependeu de apertar o “publicar” alguma vez?

Eu nunca me arrependi de apertar o “publicar”, mas quase todos os textos eu publico apreensiva. Justamente por ser tão íntimo, meu coração e minha vulnerabilidade ali pra quem quiser ver, não tem como ser de outra forma. Mas aí pouco depois vem a parte boa, aquela que contei ali em cima, de outras pessoas agradecerem, se identificarem, e tudo vale a pena e passa um pouco esse sentimento.

Mas é uma coisa que me acompanha diariamente, parece que eu sou um livrinho aberto pra quem quiser ler, o que pode ser intimidador em alguns casos. Eu ainda fico surpresa quando alguém que me conhece na vida real, mas não é um amigo próximo, vem falar de algum texto que leu e aí eu me dou conta de quão exposta eu estou.

Por isso sim, têm coisas que eu prefiro não publicar, ou esperar estar com aquilo completamente resolvido na minha cabeça e na minha vida, pra que quando eu apertar o publicar, eu o fazer sem medo de me machucar mais ou de reabrir feridas que não curaram completamente.

Então às vezes as pessoas lêem um texto e acham que estou passando por aquilo e vem conversar, mas é algo que já aconteceu no passado e mas que só nesse momento eu senti que podia abrir pro mundo. No fim, eu sinto que mostrar a nossa vulnerabilidade pro mundo só nos deixa mais fortes, por mais contraditório que possa parecer. Parecer perfeita, com a vida perfeita, sem problemas, sem dúvidas, sem dor, é exaustivo. E frustrante.

Quando a gente aceita que é vulnerável, que tem falhas, a gente pode lidar com isso e seguir em frente, e o melhor de tudo, sem precisar ficar vivendo de aparências e sem medo disso se voltar contra nós um dia

- Sté Noelle

O que é feminismo para você, e o que você faz no dia-a-dia para viver uma vida com mais “girlpower”?

Feminismo pra mim é acreditar na igualdade social, econômica e política entre homens e mulheres e lutar diariamente contra o machismo. E isso não tem nada a ver com mulher ser melhor do que os homens ou mulheres odiando homens. O machismo oprime mulheres e oprime homens. Impõe padrões e papéis na sociedade que limitam todos os gêneros. Nós queremos nos libertar disso tudo. Libertar todo mundo disso. Eu acredito que lugar de mulher é onde ela quiser, fazendo o que bem entender, com quem tiver vontade, do jeito que ela preferir, quando der na telha.

Feminismo já é uma pauta intrínseca ao meu dia a dia. Quase que diariamente eu escrevo algo relacionado a isso no Petiscos, ou no blog, ou no meu facebook, porque né, eu gosto mesmo de escrever. Mas na minha vida offline praticamente todo mundo que convive comigo já cansou (espero que só no sentido figurado) de me ouvir falar sobre feminismo, dando puxão de orelha, debatendo, e tentando aprender também.

Minha vivência é uma, e acho que a gente sempre pode aprender e agregar coisas ouvindo as histórias e pontos de vistas de outras pessoas. E também aprender nosso momento de falar e nosso momento de ficar quieta e só ouvir. Porque com essa efervescência de opinião e de coisas acontecendo no momento, é compreensível que a gente queira participar de tudo, dar nossa visão sobre tudo, mas tem momentos em que simplesmente não. Melhor ouvir, aprender e refletir.

Eu moro com quatro meninos, e é muito legal ver como eles foram mudando alguns comportamentos com o passar do tempo, de tanto que a gente conversa disso, além de ler relatos de meninas que leem o blog e que começaram e enxergar o feminismo de outra maneira e hoje se consideram feministas.

Mas acho que meu maior orgulhinho é quando a minha mãe solta uma frase ou faz um discursinho sobre igualdade de gêneros. Embora ela tenha me criado de um jeito bem empoderador e livre de amarras, ela nunca se considerou feminista ou usou essa palavra em casa. E ela também tinha algumas coisas que precisavam ser desconstruídas. Hoje, quando ela fala algo e diz “estou aprendendo com a Stephanie”, juro, eu explodo por dentro de tão alegrinha.

Atualmente quais são as temáticas feministas que mais te envolvem pessoalmente?

Eu tenho pensado muito na questão de sororidade e união das mulheres. Sempre fui dessas que se orgulhava de ter mais amigos homens na escola, e hoje eu vejo quão bizarro era pensar assim e quão esse pensamento é uma construção social, especialmente por ter tanta mulher incrível ao meu redor e aprender tanto e as amar tanto.

Pra mim, apoiar outras mulheres, mostrar que estou ali por elas, e empoderá-las, e sentir essa reciprocidade, é algo que me deixa realmente feliz, além de ser muito poderoso. Sérião, as mulheres juntas, lutando umas pelas outras, se apoiando, é o que vai mudar o mundo. Eu acredito muito nisso.

Ao mesmo tempo, me preocupa um pouco esse posicionamento que às vezes a gente vê, de mulheres rebaixando outras mulheres por elas não estarem desconstruídas “o suficiente” ou não sejam “feministas o bastante”. Fiz até um vídeo sobre isso, o “Fica quietinha, não”, porque acho que o caminho não é xingar, apontar o dedo, mas chamar pra conversar, esclarecer e debater.

Casa Petiscos

Um pouquinho do amor que foi o escritório do Petiscos, da Julia Petit, em São Paulo <3

Quais são as suas ícones feministas?

A minha maior ícone feminista é a Juliana de Faria, criadora do Think Olga. Eu aprendo e aprendi muito com ela, e foi através dos textos da Olga que eu comecei a me enxergar como feminista. Acho ela uma mulher maravilhosa, poderosa, forte, inteligente até dizer chega e um marco na história do feminismo no Brasil.

Violência contra a mulher existe também dentro da internet. Isso pode afastar as mulheres que gostariam de se expressar livremente, mas sentem medo dos ataques vindos de todos os lados quando ela se posiciona como feminista. É possível passar a mensagem sem ser rotulada?

Acho que aos poucos a gente vai perdendo um pouco esse receio de ser rotulada como feminista, e vamos, na verdade, nos orgulhando. Um exemplo meio besta, mas que pra mim exemplifica muito isso: ano passado, era bem difícil achar uma camiseta com um “girl power” escrito. Hoje, a cada três posts no feed do meu Instagram, um tem alguma garota usando uma peça com algo relacionado ao feminismo. Seja girl power, seja girl gang, seja o que for. Tudo bem, muita gente pode falar que é “modinha”, que muitas dessas garotas talvez nem saibam exatamente a bandeira que estão levantando, mas ainda assim acho positivo. É uma onda, claramente. Vai passar e nem todo mundo vai “ficar”, por assim dizer. Mas quanto mais pessoas ficarem cientes do assunto, se interessarem e forem atrás, melhor. Independente da maneira que você entra em contato com isso. O importante é você se conectar e buscar meios de fazer parte, ativamente.

Se foi vendo um discurso da Emma Watson, se foi achando uma camiseta fofa e depois indo pesquisar, se foi lendo Judith Butler ou Gloria Steinem, isso é o de menos. O que você vai fazer dali pra frente é o que conta.

E sim, acredito que pode até rolar um receio de falar algo e ser rotulada, mas nesse momento específico, tenho enxergado mais uma vontade de fazer parte do discurso, do momento, de ser parte ativa da mudança, que está acontecendo, fato.

Beleza pra você é…

Não queria ser clichê, sabe, mas cada dia que passa eu tenho mais certeza que a beleza nada tem a ver com a aparência física. Acho que isso é estética, e cada um de nós tem uma preferência. Mas beleza, mesmo, é o que transborda da alma da pessoa. A confiança, o não ligar para a opinião dos outros, o quanto ela é foda em algo que faz, quão apaixonada pela vida e por ela mesma ela é. Tudo isso transborda e é bonito de ver.

Tenho amigas e amigos que são tão bonitos, e é meio impossível não ficar hipnotizada por essa coisa toda que os envolve. Não tem a ver com parar o trânsito, fazer as cabeças viraram quando entra no lugar. Isso é legal, divertido, massageia o ego, mas é superficial, né. Beleza é de dentro pra fora e a gente constrói (ou destrói) todo dia.

O que você diria para a Noelle de 21 anos?

“Miga, desce daí, se leve menos à sério e acredite menos no hype. Cê pode achar que chegou em algum lugar, mas deixa eu te contar que tem uma longa estrada pela frente. Mas ó, pode continuar escrevendo, isso vai te fazer muito bem.”

– Stephanie Noelle foi fotografada por Juliana Kang em São Paulo.

  • Mariane Tambelini

    adoro ela! Entrevista muito amor!